Há coisas que nos acompanham desde sempre. Coisas materiais cuja origem não conhecemos muito bem mas desde o ínicio da nossa história, ou pelo menos, do que nos lembramos dela, sempre estiveram lá, marcando presença assídua na memória. Estico-me aqui, muito além do absurdo habitual, para escrever sobre um sofá, O sofá concretamente. A coisa material que me ocupou a tarde inteira, neste clima quase desértico, que experienciamos durante este Agosto. Não cresci muito mais, mas desde pequena que O sofá lá está, a marcar presença por entre o restante mobiliário, quase nunca utilizado. Acompanhou a primeira mudança, tendo deixado os outros para trás, O sofá durante uns tempitos foi o nosso único local de assento, até se adquirirem os confortáveis cadeirões, voltando a encostar-se O sofá a um canto, servindo apenas para pousar os cestos de roupa acabada de passar e pouco mais. Agora nesta jornada veio também, encatrafiado na sala em que mal cabe à força, uma vez que ainda estava em bom estado de conservação, era desperdício não trazer. Ao fim de quase dois meses de labuta inglória, somos obrigadas a chegar a uma conclusão: alguma coisa tem que sair. O quê? O sofá! - nunca é utilizado, ainda por cima não deve muito à beleza, não é preciso chamar o querido mudei a casa por uma decisão que podíamos perfeitamente ser nós a tomar. Vamos então vermo-nos livres dO sofá, supunhamos nós. Pragmaticamente, para aliviar o peso de carga, decidimos desmontar a parte "cama" dO sofa-cama; falar ou escrever é idoneamente fácil - destruir, acreditava eu em inocência, também. A não ser, que o objecto da nossa destruição, tenha sido alvo de uma construção trapalhona. Resumindo e concluindo, o raio da cama estava presa ao sofa por uns pregos grossíssimos, equivalentes ao diâmetro da minha mão, que nem sequer bem pregados estavam, a bela obra estava dobrada à volta da madeira do fundo. Logo hora e meia gasta aí, a utilizar uma chave de parafusos como pé de cabra, um alicate como tesoura, gira que não gira à volta das cabeças, lá foi. Uff, muito melhor! Agora que está leve, tiramo-lo com relativa facilidade. Esquecendo apenas que quando O sofá entrou, e passou pelo estreito corredor directo à sala de estar.. ..a casa estava vazia. Com vazia refiro-me sobretudo à ausência da estante das BDs que ocupa metade do hall de entrada. "Se tentarmos passar primeiro os braços, um ângulo de 45º, inclinando as costas obliquamente, empurrando um bocadinho para a cozinha..." - "Não passa assim.. puff.. e se fizermos isso, levantando acima da estante?" - "Podemos tentar" - "olha o candeeiro.." - "não passa na porta por causa das costas" - "Cuidado que eu estou aqui!" - Incrivelmente divertido, tanto que o raio dO sofa se recusava a sair do posto. Não estando para modas, fui buscar a serra à caixa de ferramentas, apontando directamente para o tecido, comecei a serrar. Foi o que comecei, sim, o terminar já envolveu pontapés e insultos mentais atentando contra a 3ª geração descendente do objecto. Não havia de ser mais teimoso, e já sem costas, lá passou (por cima da estante), tendo sido arrastado até aos caixotes de lixo mais próximos, que pelo momento da nossa chegada, já contavam com um fogão e um candeeiro - adicionando O sofá e a cama, será possivel fornecer uma casinha, nada ambicioso, assim uma coisa em começo de vida, beneficiando de um género de decoração negligé.
Não foi o filme da minha vida mas ocupou-me bem a tarde, em compensação dos muitos anos em que a sua presença foi descurada, achei que merecia uma referência. Portanto aqui fica, a história dO sofá, é favor ler com uma entoação estourada.
2 comentários:
Paz à sua alma!
Embora não fosse um objecto muito estimado, o trabalho que deu a remover tornou-o especialmente odiado pelo que é bom sentir que já não nos assombra.
Da para ver um bom pulp fiction ehehe :P
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