Ontem, dia 28 de Novembro, decorreu no grande auditório da Gulbenkian um concerto executado pela orquestra da casa, conduzido pelo Maestro Lawrence Foster e com a participação especial da solista Janine Jansen (violino). Devo confessar que durante a primeira parte do evento lamentei seriamente ter adquirido bilhete; Sem reparos à técnica dos instrumentistas que roçava a excelência com um bocejo e, sem troçar do condutor que remontava àquela personagem do mundo fantàstico da minha infância, o elfo - mas numa versão electrizante - as duas primeiras obras só não resultaram numa concussão craniana para o desgraçado ouvinte à minha frente porque a senhora dona minha mãe, mais ràpida que a sua própria sombra, o impediu no preciso momento em que o meu nariz sonolento estava prestes a colidir no dito espaço aéreo alheio – isto nunca é bom sinal.
Numa orquestra maioritariamente composta por cordas, sendo a presença dos sopros quase nula, foi nos oferecido, a nós = os parolos do público, um Mozart e um Bizet aparentemente interpretados pelo MakeMusic Finale [para quem ainda não sabe: programa de composição de partituras com reprodutor MIDI – google nisso!]. Lia-se nas notas que se faziam soar, sem sentimento ou alma, que estavam ali meramente para picar o ponto. Conheço uma pequena bolota de ano e meio, capaz de se expressar melhor musicalmente, transmitindo vida, sem deixar que a magia se transforme em ciência e, a ciência se transforme em mecânica.
Eram todas estas as minhas queixas quando fui para o intervalo. Pessoalmente não sei se a conceituada violinista estava atrás da porta a ouvir o meu protesto, mas parecia que sim. Quando entrou em palco, acompanhada pelo Maestrelfo, tinha uma expressão determinada e foi nesse instante que aqui a parola soube que ia ouvir música. Lançada num solo absolutamente genial, sem partitura para seguir, a entrega do seu coração à melodia que produzia foi tudo menos discreta. Os restantes instrumentistas, mais por despeito do que por consideração com o público, face a tamanho protagonismo e desempenho, sentiram necessidade de melhorar a sua performance drasticamente e digo até, atreveram-se a tocar música.
Um concerto que contava com o contributo de uma orquestra inteira resumiu-se ao momento em que o palco acolhia uma rapariga com o seu violino e, apenas estes dois elementos elevaram uma sala com a lotação esgotada num prolongado aplauso. Acto este que conquistou para o humilde público um encore, apenas ela e o seu instrumento, indescritível e de levar às làgrimas.
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