21 novembro 2008

Nostalgia

Passando por Lisboa de autocarro, não consegui deixar de recordar as palavras do poeta:

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,

Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

Álvaro de Campos
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Agora a minha versão:

Lisboa com seus prédios
Cinzentos e não de várias cores,
Suja pelos errantes do tédio,
Palco de tragédias e perpétuos amores.

Lisboa com suas estradas
Sem imaginação e pouca glória,
Tunéis que fornecem entradas
A uma Lisboa que perde a história.

Lisboa com suas obras intermináveis,
Não consigo ouvir o teu desagrado,
Mas não te esqueço, és memorável
Mesmo que a mágoa seja o teu fado.

Invejo-te Álvaro, nem sabes quanto,
Que em tempos idos, sem terrores,
Conheceste e esqueceste para teu encanto,
Lisboa com suas casas de várias cores.

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